Agoniante Vazio

Pode-se dizer que Roberto Grubhofer provou quase tudo... Sua existência é o espelho da filosofia de vida de muitos jovens em nossa sociedade, que crescendo às vezes em berço de ouro são vazios e frustrados. Sobrevivendo entre as ascensões e quedas, loucuras, delírios e conquistas, terminou por se encontrar em meio a um tremendo desencanto. E foi a partir daí que quase tudo começou a mudar...

Roberto Grubhofer-Engenheiro. Meu pai separou-se da minha mãe quando eu tinha oito anos de idade, e foi morar no Rio de Janeiro. Engenheiro atuava no ramo de telecomunicações. A irmã de minha mãe casou-se com o irmão do meu pai, mas seu casamento também não deu certo. As duas irmãs foram então morar no Canadá, e eu, meu irmão e meus primos fomos morar com nossa avó. A maioria das pessoas da minha família desfrutava uma condição financeira muito boa, disso se aproveitando para compensar a falta de nossos pais, suprindo-nos da melhor maneira possível, tanto no aspecto afetivo como material. Na verdade tínhamos tudo com que uma criança poderia sonhar. No, entretanto, mesmo assim sentíamos demais a falta de nossos pais.

Quando cheguei aos 13 anos de idade, fomos morar no Canadá. Estudamos numa escola de línguas, a fim de aprender o inglês, e depois continuamos os estudos numa escola em Montreal.

Minha mãe abrira um restaurante, e nele trabalhávamos, conciliando essa atividade com os estudos. O restaurante ia muito bem. No entanto algo terrível veio a suceder, interrompendo nossa segurança. O restaurante ocupava um andar térreo de um edifício no centro da cidade, que sofreu um incêndio, desabando todos os pavimentos em cima dele. Minha mãe, que estava negociando com a seguradora o valor do seguro, e ainda não havia assinado a apólice, ficou sem nada. Com isso, inconformada, entrou em desespero, passando a beber muito.

Por ser de temperamento agressivo, a convivência se tornou muito difícil. Forçado a sair de casa, a fim de evitar atritos, fui morar como dois amigos italianos que conhecera na escola de línguas. Aliás, convidei meu irmão para morar conosco, mas ele não aceitou. Rejeitei a idéia de pedir ajuda financeira a parentes no Brasil, achando que não entenderiam a situação. Felizmente no Canadá era muito fácil trabalhar. Logo arrumei dois empregos, e passei a me sustentar.

Após um ano e três meses de morarmos no Canadá, voltamos para o Brasil. Como mencionei antes, sempre ganhávamos tudo que desejássemos. Quando voltei do Canadá, com apenas 14 anos já tinha meu próprio carro. Aliás, tínhamos os melhores carros e motos da época. Mandávamos rebaixar a suspensão até quase o chão, colocar rodas mais largas, volante pequeno, mexer no motor das motos de 75cc para andarem mais rápido, ficando motos e carros prontos para alucinadas corridas.

Enquanto normalmente os adolescentes de minha idade brincavam de autorama ou com coisas compatíveis com a idade, meus vizinhos e eu brincávamos com cronometrados, para ver quem conseguia a volta mais rápida de carro no quarteirão. Apostávamos corrida nas vias rápidas que construíam, tendo eu sofrido, com tantas loucuras, vários acidentes, quando o carro, às vezes a moto, ficavam praticamente destruídos. Contudo eu me machucava pouco. Só não morri, acredito porque Deus certamente instruía seus anjos no sentido de me proteger.

Minha vizinhança era, na maioria, construída por pessoas de classe média alta. Logo um dos adolescentes descobriu algo bastante “interessante”: a maconha. De repente estavam quase todos fumando... Disse quase todos porque um deles, que por sinal apelidaram de careta _ eu _, não simpatizava muito com a idéia, e nem cigarro comum eu fumava. Normalmente o ponto de encontro era em frente a minha casa, e quando eles estavam usando a grande descoberta, e eu me aproximava da roda, um deles dizia: “Ih! Sujou! Lá vem o careta!” E eles faziam tudo para me convencer de que aquele negócio era o melhor do mundo, e a minha vida iria ser uma maravilha quando eu começasse a usá-lo. Mas algo lá no fundo me dizia: “Isso aí não é pra você! Eles estão se iludindo...” Confesso no entanto, que depois de muita insistência, cheguei a experimentar a tal da maconha. Senti muito sono (bodiei ...como eles diziam), depois fome e cansaço. Então pensei; “É isso aí a coisa tão maravilhosa?...” Lembro que meu primo tinha descoberto os cogumelos (alucinógenos que faziam praticamente o mesmo efeito que o LSD). Ele, meu irmão e outro batiam no liquidificador com leite condensado, e a minha vó, quando ia à cozinha pensava: “Como se alimentam bem esses meninos!”

Mas apesar de eu não ter usado drogas, convivíamos e éramos terríveis, cozinhando a toda a força uma grande revolta com a ausência dos pais. Briga com agressão física era muito comum entre nós. Duas vezes fui expulso de colégios. Independentes rebeldes, fazíamos o que queríamos. Mesmo jovem sem orientação (o que não existia na época), pude perceber que as drogas eram um engano terrível; só serviam para escravizar as pessoas. É impressionante ver como aqueles que usam drogas tentam convencer que elas são a melhor coisa do mundo, não se conformam com o fato de você se negar a usá-las também.

Éramos muito carentes, e eu procurava compensar a carência com o namoro, o que normalmente incluía relações sexuais_sem a menor maturidade. Com receio de sofrer, fugia a me envolver emocionalmente. Machuquei muitas pessoas, e algumas vezes eu é que saía machucado. Toda vez que penso nisso, agradeço a Deus por não ter engravidado ninguém naquela época.

Quando estava concluindo o segundo grau, descobri que em São Leopoldo havia uma universidade muito boa. Como a possibilidade de passarmos no vestibular lá era maior, eu e meus amigos fomos para aquela cidade. Aprovados, alugamos um apartamento. Praticamente todos os amigos que moravam comigo em São Leopoldo eram de família muito rica. Logo percebi que eles estavam muito mais pra bagunça do que para estudo. Montaram um bar na sala, e cada um tratou de abastecê-lo com muitas espécies de bebidas, que iam sendo consumidas. Confesso que nuca fui inclinado a beber. Gostava de quase todos os tipos de bebida, mas poucas vezes em que me excedi, no dia seguinte me sentia imprestável. Graças a Deus nunca vi vantagem em ficar bêbado. Infelizmente, porém, o único que pensava assim era eu, pois os outros bebiam até mais não poder. Em conseqüência disso, freqüentemente eram promovidos jogos de futebol no apartamento, guerra com extintores de incêndio, etc. No começo as festas eram apenas nos finais de semana, mas o pessoal gostou tanto que resolveu estendê-las. Meus amigos resolveram acrescentar a tal da maconha para animar mais as festas. Com o passar do tempo comecei a me incomodar com aquilo.

Estava um dia na sala de aula quando apareceram à porta três senhores de terno, solicitando ao professor que lhes permitisse dar uma breve palavra aos alunos. Cada uma deu então um testemunho bem curto da sua vida. Não me lembro quase nada do que falaram, apenas que eram empresários e que faziam parte de uma associação conhecida como “Os Gideões Internacionais”, haviam tido uma experiência com Jesus Cristo, e desde então a vida deles melhorara demais. Tudo o que falaram me tocou muito. No final distribuíram aos alunos um Novo Testamento, com os Salmos e Provérbios. Eu, que nuca tinha aberto uma Bíblia, levei aquele presente para casa e, por curiosidade, comecei a lê-lo. À medida que lia_ apesar de não entender muito bem_, ia ficando fã de Jesus Cristo. Comprei então dois quadros com Jesus e coloquei-os na parede do meu quarto.Os meus companheiros, quando viram aquilo, disseram: “O cara já é meio esquisito, mas agora ficou louco de vez!”

Normalmente eu lia a Bíblia todas as noites. Apesar de não entendê-la totalmente, aquela leitura me fazia muito bem. Lembro que uma noite, embora morando com quatro colegas, estava me sentindo muito só e triste, a ponto de não ter mais vontade de viver. Então abri a Bíblia e me pus a ler o Salmo 27. Quando cheguei ao versículo 10, as palavras pareciam saltar. Era como se o próprio Deus estivesse ali comigo, me dizendo:

“Porque se meu pai e minha mãe me desampararem, o Senhor me acolherá”.Essas palavras foram muito fortes para mim, e marcaram a minha vida. Comecei a freqüentar a igreja, lugar aonde ia apenas quando havia casamento. Mas naquela igreja meu interesse era tamanho, que a procurava quase que diariamente. Fiz isso por um período de dois anos e meio. Mas com o tempo o entusiasmo foi se apagando, e como ninguém me falara da Bíblia, nem encontrara ninguém com tal entusiasmo (se bem que nuca procurara) parei de lê-la, e meu interesse desapareceu.

Um dia, em São Leopoldo, conheci uma pessoa muito bonita que me chamou a atenção. Ana era diferente das outras mulheres que havia conhecido, e começamos a namorar. Formei-me, e casamos. Antes disso, uma das condições que lhe apresentei foi a de não termos filhos. Isso foi muito difícil para ela, pois desejava demais tê-los. Contudo aceitou o trato, e nos casamos. Logo após a lua de mel, iríamos morar em Curitiba, num apartamento, mas o inquilino não cumpriu a promessa de desocupação. Em conseqüência disso propus à Mana, e contra a sua vontade, que fossemos provisoriamente morar coma minha mãe (que estava morando em Curitiba).

E assim aconteceu. Com ela moravam meu irmão e minha avó. Nós, que não estávamos acostumados a morar juntos, ainda mais numa situação como aquela, enfrentamos muitos problemas, e acabamos não nos adaptando. Minha mãe bebia de vez em quando, meu irmão usava drogas, e os relacionamentos eram, naturalmente, bastante conflitantes.

Reconheço que cometi um tremendo erro. A própria Bíblia diz que quando um homem e uma mulher casam devem deixar os pais, e também não depender deles. Na sua infinita sabedoria Deus sabia que poderiam ter muitos problemas, caso isso acontecesse. A Mana teve uma vida completamente oposta a minha. Apesar de o pai ter falecido quando tinha 11 anos de idade, ela recebeu muito amor por parte da família. Vivia m harmonia com todos, e sua criação foi muito diferente da minha. Era sempre apoiada por alguém, toda vez que participava de um evento importante, o que não acontecia comigo. Mas apesar disso, nem ela e muito menos eu, estávamos preparados para o casamento.

Lembro-me que enquanto casado, havia na minha mente uma voz sempre me incomodando, dizendo que eu me devia separar dela. E quando afinal lhe disse que queria me separar, por um período de quatro meses ala fez de tudo para salvar o casamento. Mas eu estava decidido, e após um ano e quatro meses de casados, nos separamos.

Depois de me separar comecei a me envolver com outras mulheres, mas cada vez me sentia mais frustrado, com um grande vazio dentro de mim. Mais tarde, depois da experiência que teria com Jesus, iria descobrir que muitas vezes nos enganamos, julgando que a solução para nossa vida é a separação. Na maioria dos casos o problema está em nós mesmos. Já

fazia um ano que estávamos separados, quando um dia fui convidado para ir a uma reunião de estudo da Bíblia, na casa de amigos. Eles se reuniam todas as sextas-feiras à noite. Após muita insistência resolvi aceitar. Chegando lá, percebi que havia alguma coisa diferente com aquelas pessoas: tinham um brilho diferente nos olhos, um sorriso que não se vê por aí.

Quando a pessoa que apresentava o estudo se pôs a falar de Jesus, comecei a lembrar do tempo em que procurei me relacionar com ele. Mas eu o abandonara! Veio-me então um profundo arrependimento: reconhecia que se houvesse permanecido naquele caminho muitos males poderiam ter sido evitados.

Na semana seguinte fui à praia. Uma noite peguei a Bíblia e comecei a ler. Confesso que não entendia quase nada, tudo que lia parecia muito estranho. Mas graças a Deus percebi que o problema estava em mim.

Naquele momento não havia ninguém ali. Fui para a beira do mar e fiz uma oração em voz alta. Olhando para as estrelas, imaginei que Jesus estava me ouvindo (e estava mesmo). Então disse: “Senhor Jesus, eu sei que tenho cometido muitos erros. Perdoa os meus pecados, e entra na minha vida, eu te peço!”

A partir daquele momento comecei a sentir uma paz muito grande. Mas apesar de haver pedido a Deus perdão dos meus pecados, algo dentro de mim me convencia de que algumas coisas ainda estavam erradas.

Após reconhecer que errara muito com respeito à minha mulher, a primeira coisa que fiz foi pedir-lhe perdão por todo o sofrimento que lhe causara, e confessar-lhe que, se ela tivesse disposta, gostaria de reconstruir nosso casamento, o que reconhecia não ser fácil, depois de tudo o que acontecera.

Seria muito mais fácil tanto para mim quanto para ela, esquecer tudo, pois afinal de contas estávamos separados havia um ano, e tanto eu quanto ela estávamos nos relacionando com outra pessoa: mas algo lá no meu íntimo me fez lembrar que quando casados eu lhe fizera um juramento perante testemunhas, garantindo-lhe que iria cuidar dela, amá-la na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, e que a única coisa que poderia nos separar seria a morte.

Graças a Deus, apesar de não ter sido fácil ela me perdoou. Deus misericordiosamente restaurou e curou nosso casamento. Confesso, porém, que não foi nada fácil. Ambos sofremos muito. Cometi muitos erros para com ela. Fazia pouco tempo que tivera um encontro com Jesus, e queria que ela tivesse a mesma experiência. Demorei muito tempo para entender que para uma cana quebrada a pregação tem pouco proveito; o que ela necessita é de ser amada, pois o que realmente funciona é o amor. Passados alguns meses, porém, ela teve igual experiência.

Meus familiares cometeram muitos erros, como eu também. Passei por muitas coisas que me feriram profundamente. Sei que também os feri. Contudo hoje posso afirmar que lhes perdoei completamente.

Devido ao que passei, sempre tive dificuldade de expressar amor por minha mulher. Acostumada a receber muito carinho da família, sofreu muito com isso. Esquecia datas importantes, sobra as quais ela era obrigada a me lembrar. Eu então tirava dinheiro da carteira e dava para ela comprar um presente. Isso a deixava desapontada comigo. Flores, então, nem se fala: não havia o menor sentido gastar dinheiro com isso; ou dizer-lhe de vez em quando que a amava, não mesmo! No entanto aprendi que para nossa mulher, o ideal é dizer isso todos os dias. Passado tanto tempo, aprendi o quanto essas coisas são importantes, não só para ela, mas para todas as mulheres. Tenho procurado não mais falhar nisso, mas confesso que ainda tenho um pouco de dificuldade. Deus me tem ajudado. Hoje nos amamos muito. Nosso lar é repleto de amor, paz e harmonia.

No começo mencionei que uma das condições que impus a Mana foi a de não termos filhos, devido ao que passei na minha vida. Mas Deus mudou o meu coração, e de tal forma, que uma das maiores alegrias que tive, talvez a maior, foi quando a pediatra veio à sala de parto com a Letícia no colo, e me disse que ela era a minha cara! Nem consigo expressar em palavras a felicidade e a gratidão a Deus que experimentei naquele momento. Hoje meu maior prazer é estar com a minha família. Inclusive quando tenho que viajar a negócios não gosto de ir sozinho_sempre que possível levo todos comigo. Não sinto nenhum prazer em fazer programas sem elas.

Faz oito anos que conheci Jesus. Nossa vida não é um mar de rosas; enfrentamos dificuldades e obstáculos, mas com eles temos condições de vencer os problemas que surgem. Graças a Ele o agoniante vazio que sentia desapareceu completamente. Ele me fez descobrir que aquela horrível sensação era resultado da falta de Deus em minha vida.

Roberto Grubhofer – Engenheiro e Empresário.

Reside em Capanema PR.

Transcrito da Revista A VOZ - Adhonep