Perigo no Pantanal

Procurador de justiça. Adilson descobriu que às vezes é preciso um tremendo susto, um pavor mesmo, diante do imprevisível, para que o homem se sinta pequenino e dependente, acorde de uma vida alienada de Deus e se volte para Ele. Num barco que por milagre não afundou num rio cheio de piranhas, o jurisconsulto culto e confiante viveu a pior experiência de terror em toda a sua vida.

   Contava mais de 30 anos de idade quando um saudoso amigo, conversando comigo, me perguntou como andava meu relacionamento com Deus. Respondi que estava bem. Ele não se convenceu.

   Naquela oportunidade eu passava por um período de grande cansaço físico e mental. Cursara a Faculdade de Direito nos últimos cinco anos, e ainda trabalhava durante o dia. Até então, o Deus que eu conhecia era aquele que a maioria das pessoas chamam de “O velhinho lá de cima”.

   A par disso, um fato desagradável havia abalado a minha estrutura emocional: o falecimento do pai de um colega de faculdade e escritório, e um de meus melhores amigos. Embora tentasse aparentar controle, eu sofria muito. E nessas circunstâncias brotam fatalmente perguntas sobre o sentido da vida, como e com quem se passará a eternidade, para onde se vai depois da morte, e assim por diante.

   Em 1980 fui aprovado no concurso do Ministério Público. Em razão disso saí de Porto Alegre, deixando para trás o convívio com a família e os amigos. Daí para frente o lado espiritual, pelo fato de não ter com quem me abrir e conversar a respeito, foi rapidamente enfraquecendo. Com o exercício do trabalho profissional nas várias promotorias de Justiça, acreditei que podia fazer as coisas acontecerem por mim mesmo, sem a necessidade de ajuda. Já não buscava a direção e o ensinamento de Deus. Restou-me tão somente fazer aquilo que o homem comum faz, com visível declínio do lado espiritual.

   Encontrava-me nessa situação quando, numas férias de meio de ano, inverno no Sul, fui convidado para uma pescaria no Pantanal do Mato Grosso. Juntamente com a família, passei então alguns dias na cidade de Campo Grande, onde o marido da prima de minha mulher, conhecedor do Pantanal, organizou a pescaria.

   Fiquei impressionado com a beleza natural daquela região ainda selvagem, que conservara lugares intactos e indevassados pelo homem, bem como grandes perigos nos rios Correntes e Piriqui. Os mosquitos atacam do final da tarde até parte da noite e ao amanhecer; as piranhas são numerosíssimas, e não poupam as vítimas com algum sangramento; a sucuri, uma das maiores cobras do mundo, é imbatível dentro dágua; a onça é outra tremenda ameaça, e embora não tenha visto, ouvi no meio da noite.

   No entanto, sobrepujando tantos perigos impressiona o encanto dos rios piscosos, do verde das margens e dos campos, bem como o canto e os diversificado colorido das aves. Tudo isso me fez retornar outras vezes àquele lugar.

   Exercia atividades profissionais na Comarca de Sapiranga. Ao voltar de minha segunda ou terceira pescaria, reuni os amigos e lhes relatei minhas experiências no Pantanal. Entusiasmados todos resolveram seguir meu exemplo. Em setembro de 1983, saímos de Sapiranga em direção a Campo Grande. A caravana se compunha de dois veículos, o maior deles levado no reboque uma lancha com motor de 60 hp. Em Campo Grande passou a fazer parte do grupo o Vanderlei Tinoco, marido da prima de minha mulher, com sua caminhonete e o barco de alumínio de sete metros de comprimento.

   Empreendemos viagem e chegamos pela manhã à fazenda de Manoel Bispo dos Santos, situada às margens do rio Corrente, município de Pedro Gomes. Após as apresentações, todos começaram a carregar o barco e a lancha. Como a carga era muito grande, seria preciso fazer duas viagens pelo rio, num percurso de aproximadamente 50 minutos de ida e outro tanto de volta, até o local do acampamento. O barco logo ficou lotado.

   Como fosse necessário ir ao local do acampamento e retornar, deixei meu colete salva-vidas na margem do rio, junto do material restante. Sempre que estou embarcando uso colete, porque não sei nadar. Confiava, contudo, que nada de ruim iria acontecer, apesar de serem muito perigosos os rios pantaneiros, que se tornam maiores depois das cheias de dezembro a março; a força das águas arranca e arrasta muitas árvores para dentro dos rios. Por volta de maio e junho eles baixam e voltam ao leito normal.

   Havíamos chegado cerca da metade do percurso. Os próximos 20 ou 30 minutos se constituíram para mim na mais terrível experiência que já tivera na vida. Meu sogro assentara próximo da poupa, eu no meio, e o Vanderlei na proa, manobrando o motor de 27 hp. A carga havia ficado um pouco elevada, de maneira que era difícil ver quem estava lá na frente; e ninguém podia ouvir-se.

   Antes de uma curva, bem no meio do rio, meu sogro avistou um tronco de árvore quase na vertical. Gritou do lugar onde se encontrava, voltou-se para trás, gritando novamente, avisando que havia obstáculos à frente. Nada pudemos ouvir. À direita daquele tronco, submerso uns 40 centímetros ou mais, estendia-se um galho maciço, imperceptível a olho nu. Pois o barco, que corria veloz, subiu naquele galho e virou, ficando o casco para cima. O piloteiro foi o primeiro a sair nadando para a margem.

   À medida que o barco virava, eu me segurava na alça da borda. Passei por debaixo dele, permanecendo ali agarrado. Meu sogro ficou do meu lado e me ajudou a subir ao casco, onde fiquei, como montado na sela de um cavalo. Ele permaneceu também por alguns minutos, seguro na borda da embarcação, mas logo percebeu que o peso de dois acabaria por levá-la ao fundo. Disse-me então que nadaria até a margem e avisaria aos companheiros da lancha, que a essa altura certamente estariam vindo em nossa direção.

   Iniciava ali, numa das curvas do rio Corrente, a pior experiência de terror que enfrentei. Eu tinha, como resultado do acidente, um sangramento no joelho esquerdo e outro no pé direto. Procurava ficar imóvel para que o barco não se desvirasse, e para que o sangue não atraísse as piranhas.

   Embora o banco do barco contivesse no seu interior um pouco de ar, já que serve de viveiro para colocar os peixes, não levaria muito tempo para que afundasse de vez, em vista de estar levado pela correnteza do rio. Não me restava esperança alguma!

   Sozinho naquela situação trágica, muitos pensamentos brotaram na minha mente, passando rápidos diante dos meus olhos, como que projetados numa tela de televisão. Vi a angústia das minhas filhas ainda pequenas, e da minha mulher recebendo a notícia do naufrágio e do desaparecimento do corpo, que comido pelas piranhas, jamais seria encontrado. Vi meus parentes e amigos; vi passagens de minha infância e adolescência – tudo correndo ante meus olhos, com a rapidez de um relâmpago.

   O desespero era tremendo, e a sensação de morte, iminente. Voltei o pensamento para o dia em que meu amigo me falou de Jesus Cristo, aquele que salva, que cura, que levou sobre a infamante cruz nossas dores, angústias e culpas. Relembrei os cânticos e louvores que antecediam as reuniões de oração, e os cultos. Recordei o progresso da fé e a queda vestiginosa, por ter voltado às costas para Deus.    Montado no casco do barco comecei a entoar baixinho alguns corinhos da igreja. Cantei todos de que me ia lembrando, inclusive um que me marcou muito e até hoje me comove: Segura a mão de Deus.

   Depois disso me dirigi a Deus em oração, e no nome de Jesus clamei por minha vida e por misericórdia, suplicando que me fosse feita à vontade do Pai. Naquele momento pela primeira vez na minha existência entregava tudo nas mãos de Deus. E me deixei debruçar sobre o casco do barco. Percebi que ele não afundava. Era como se alguém o empurrasse do fundo do rio para a superfície.

   Não havia ninguém comigo, mas mesmo assim sentia a presença viva do Senhor ao meu lado. Ele atendeu ao meu clamor. Agora entendo o recado que quis me dar em meio àquela grande tribulação:

    “... Não temas porque eu te remi; chamei pelo teu nome, tu és meu. Quando passares pelas águas , eu serei contigo; quando pelos rios , eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti. Porque eu sou o Senhor, teu Deus...”( Isaías 43.1-3)

   Naquele momento tive absoluta certeza de que não morreria afogado, e meu corpo não seria comido por piranha nem animal algum. Poucos minutos depois a embarcação, levada pela correnteza, aproximou-se da margem, onde uma grande arvora estava parcialmente caída no rio. A popa, com o motor em posição invertida, enganchou-se aos galhos, e a embarcação ficou parada presa na árvore.

   Engatinhei bem devagar, até encontrar o tronco. Fiquei em pé me abracei àquela árvore como se fosse alguém muito estimado, e que não via fazia muito tempo. Para chegar à margem, contudo, era preciso caminhar (macaquear) pelos galhos uns três metros. Decidi esperar por socorro, por temor a ter de enfrentar alguns perigos. Minutos mais tarde Vanderlei e os companheiros da lancha me ajudaram a sair do centro do rio.     Este acontecimento teve para mim pelo menos dois grandes significados: um alerta, ou seja, um recado muito forte da parte de Deus, por meu desleixo na fé; a constatação de que Ele manifesta seu amor e misericórdia por seus filhos nas circunstâncias de tempo e lugar os mais inimagináveis. No momento da desesperança, quando tudo se exaure e ninguém vem ao nosso socorro, Deus não falha.

    “Eis que a mão do Senhor não está encolhida, para que não possa salvar; nem surdo o seu ouvido, para não poder ouvir” (Isaías 59.1)

   Hoje sinto imensa alegria por haver retornado a Deus. É como a alegria do filho pródigo, ao voltar para casa do pai.

ADILSON SILVA DOS SANTOS
Procurador da Justiça aposentado
Empresário em Porto Alegre RS.
Transcrito da Revista A VOZ
Adhonep