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 O AVESSO DO AVESSO
Alfredo Gusmão Maia
Pecuarista e cafeicultor
... a cocaína provoca mania de perseguição, paranóia e alucinações...
EU, estava completamente desacreditado perante a sociedade. Rejeitado e humilhado, profundamente envolvido com o tráfico de drogas e com pessoas altamente comprometedoras, era evitado por todos. Minha própria postura me denunciava. Tornara-me um marginal, uma criatura muito doente, digna de dó. Fui preso e coberto de vexame diversas vezes, chegando a apanhar da polícia. Meu nome saiu muitas vezes nas manchetes policiais de Salvador: "Fazendeiro preso com cocaína"; "O filhinho de papai traficante.." Toda esse condição, embora tudo fizesse por não demonstrar, me perturbava demais.
CERTA ocasião fui para Porto Seguro com minha mulher, já com um filho, e me hospedei numa pousada de 40 apartamentos, onde só estávamos eu e o proprietário, um traficante meu amigo. Aliás, ele foi assassinado em 1994. Ele colocava 5g da droga em dedos de luva cirúrgica (ovinhos), amarrava muito bem, com fio dental, e despachava para a Itália dentro da barriga das pessoas - que chamamos de "mulas"; elas engoliam a droga - cerca de 50, 100 ou até 150 "ovinhos" - e iam "desovar" na Europa. E voltavam com heroína. Ele até me propôs fazer essa viagem, mas fiquei com medo de aquele negócio estourar dentro de mim. Quando cheguei à pousada, ele estava no quarto com cerca de 5 a 6 kg de cocaína. Passava noite após noite confeccionando os "ovinhos". Eu ia lá, enchia uma colher da droga e saia correndo para o meu quarto, afim de cheirar. Ele me que o ajudasse a confecciona-los, mas eu, louco como estava, me esquivava. Como a cocaína provoca mania de perseguição, paranóia e alucinações, passados 5 dias comecei a imaginar que a polícia estava rondando a pousada, logo iria invadi-la. Fiquei desatinado. Com um papelote com cerca de 2g de cocaína em mãos, no desespero meti na boca e engoli! O efeito foi terrível! Saí correndo pelo mato, como um bicho, levando pau e pedras pelo peito, pulando cercas, me arranhando todo. Com nosso filhinho nos braços, vendo-me naquela situação desesperadora, minha mulher saiu adoidada no meu encalço.
EU era um escravo - das drogas e do diabo. No entanto nascera num lar evangélico, bem constituído. Tendo minha mãe falecido em decorrência do parto, fui sendo criado por meus avós. Transcorrido três anos de sua morte, muita avó, muito chocada com o fato, também veio a falecer. Passei então a conviver com as cinco tias solteiras, que se esforçaram por dar-me o melhor de si, tentando me criar da melhor maneira possível. E assim fui crescendo, estudando em colégios evangélicos. Aos domingos ia à escola dominical. Para mim era um verdadeiro martírio ser obrigado ir à igreja. Preferia mil vezes ir à praia ou ao cinema. Foi precisamente aos 13 anos, quando praticava surf, que conheci alguns companheiros. Eles consumiam maconha. Levado por curiosidade proveio o primeiro cigarro da droga, mas não experimentei efeitos nenhum. Insisti então uma segunda vez e uma terceira vez, quando a sensação não foi muito boa, o que me trouxe uma certa preocupação. Teimei no entanto, decidido a me encartar pela maconha. Daí a bem pouco tempo me tornava dependente. Comecei fumando nos finais de semana e nas festinhas. Pegava o dinheiro semanal, destinado ao transporte, e comprava maconha. Já não ia à escola regularmente; se antes me destacava como um bom aluno, agora demonstrava o oposto: tirava notas ruins, era rebelde em casa, desafiava as pessoas, os professores e minhas tias. Inclusive minha postura e aparência mudaram drasticamente, o que se notava pelos cabelos e o modo exótico de me vestir.
OS anos foram passando, e a cada dia mais me afundava num poço escuro, terrível. Foi então que me desentendi em casa, o que me levou a pedir que me pusessem num colégio interno. Aos 15 anos fui para o internato, mas detestei tanto aquele lugar, que transcorridos uns poucos meses acabei fugindo. Não tendo mais condição de continuar em Salvador, regressei à cidade onde nasci - Vitória da Conquista, na Bahia. Retornei decidido a trabalhar, a ajudar meu avô, um pecuarista, e a tomar conta da minha própria fazenda, que recebera como herança da minha mãe. Entretanto, assim que cheguei tive a infelicidade de conhecer uma jovem recém-vinda da Holanda, que trouxera consigo uma grande variedade de drogas muito poderosas: LSD, cocaína, heroína etc. Aquilo tudo mexeu fundo comigo, me deixou muito empolgado. Acabei mergulhando de cabeça. Queria conhecer aquele mundo doido, razão por que nele me lancei inteiro. Aos 18 anos, precipitadamente me casei com uma jovem, que engravidou ao 17 anos. Não chegamos a viver juntos nem dois anos. Ela já tinha duas filhinhas, quando atravessei crises de loucura por excesso de LSD. Até que aos 20 anos enfrentei uma crise muito séria: já não colocava os pés no chão; totalmente fora de órbita, via as pessoas em câmera lenta; um disco na vitrola parecia levar duas horas para dar uma volta, de tão mal que andava minha cabeça. Diante disso, minha família me internou em uma clínica psiquiátrica; por engano me levaram para uma em Porto Alegre - a única na América Latina que tinha um regime carcerário-incomunicável. Permaneci ali confinado durante cinco meses e meio, sem me comunicar nem mesmo com a família. Era mantido enclausurado, tomando drogas e remédios violentíssimos. Sentia desejos tremendos de morrer, inclusive impulsos de suicídio. Olhava para as janelas e não via a menor condição de fuga; era situação terrível; não podia rir, chorar, desabafar; enfim, não tinha direito a coisa nenhuma. Era uma clínica de luxo, porém com um tratamento extremamente rude e severo, na verdade desumano.
NO final de seis meses deixei aquela clínica irado, muito mais revoltado do que ao entrar. Sai disposto a acabar com tudo, jogar tudo pro alto! Regressei a Vitória da Conquista, e a primeira coisa que fiz foi pegar meu carro - do ano, lindo e todo equipado - e trocá-lo por 130g de cocaína. Dirigi-me então à minha fazenda, a mim entregue pela família, por julgar que eu estivesse curado. Era uma fazenda espetacular, situada em região nobre, de cacau. Peguei então aquela terra, e muito alucinado, vendi-a por uma bagatela. No entanto ela representava o maior anseio que alimentava no íntimo: trabalhar firme naquele lugar sonhando, até transforma-lo num milagre. Contudo a droga me descontrolou completamente, deixando-me tresloucado, perdido. Após vender a fazenda e pegar uma quantia razoável, passei a promover farras de segunda-a-segunda - em meio a drogas, festas, bebidas para todo mundo.
EU virava e batia carros constantemente, provocando perdas e acidentes. Eram dias negros: de Salvador para Porto Seguro; de Conquista para o Rio de Janeiro - sempre em busca de novas e fortes emoções: mulheres, tóxicos, farras, delírio...No entanto, apesar de imerso em agitação e rodeado de gente (todos loucos), sentia-me sempre só e amargurado, à espera de algo que não conseguia definir... No meio de toda essa loucura, conheci minha segunda e atual mulher. Tendo apenas 14 anos de idade, tirei-a de casa e a introduzi nos vícios. Era uma garota bonita, mas uma menina, e logo também se tornava dependente. Eu a fiz sofre demais; demais mesmo! Muito mulherengo, tive inúmeros casos amorosos. Cheguei ao absurdo de dormir com 7 a 8m mulheres ao mesmo tempo, num hotel 5 estrelas, com bebidas importadas e drogas caras. Mas fosse como fosse, estivesse com quem estivesse, era uma solidão só, uma depressão agonizante...Foi nesta época que recebi um amigo que acabara de chegar da Bolívia, trazendo alguns quilos de cocaína. Levei-o até o carro e conduzi para uma fazenda. Chegamos há um estado tão terrível, que não estávamos mais "batendo" a cocaína para cheirar, como se diz na gíria; eu metia o nariz dentro de um vidro com um quilo da droga, cheirava e saia alucinadão! Foi uma viagem tão louca, que as quatro rodas do carro chegaram "quadradas", de tantos baques e loucuras! A gente cheirava a 160 e a 180 km/h! Nem parávamos mais para cheirar, tamanha era a paranóia! Cheguei a ter uma overdose de cocaína em plena Rio-Bahia; passei sete dias e sete noites sem engolir nada de alimento, nem fechar os olhos...aliás isso era coisa simples e até banal, já que a cocaína acaba com toda fome e todo cansaço. Tomava dois litros de uísque e não sentia nenhum efeito, porque a droga predomina sobre qualquer bebida alcoólica, por mais forte que seja.
ATÉ que o dinheiro acabou... Vendi então os carros para continuar com o vício; depois as motos. Logo passei a roubar gados na fazenda do meu avô. Minha família estava indignada! Seus conselhos de nada valiam. Eu antevia o meu fim: morrer apodrecido e com aquela maldição! Não tinha forças para me livrar, mesmo reconhecendo que estava me destruindo com as próprias mãos! Já não sabia o que era lucidez; acordava às 4:00 horas para fumar um baseado; ia dormir dopado. Usava drogas para comer e drogas para fazer a digestão; drogas para dormir e drogas para acordar. Já não cheirava menos que 10g de cocaína.
EU era escravo das drogas; escravo do diabo.. Até que um dia, por intermédio de uns vizinhos ex-alcoólatras, que assistiam ao nosso drama patético, minha mulher se converteu. Passei a me esforçar por transmitir-lhe força; eu cheirava cocaína escondido para que ela pudesse resistir à droga - sabia que se cheirasse na sua frente, ela não iria agüentar. Um dia ela chamou o pastor para fazer um culto lá em casa. Quando demos as mãos e começamos a orar, fui tomado de uma sensação estranha, e cai no choro. Então ele me perguntou se eu queria ir à igreja. Respondi: "Ouça, pastor, as portas da minha casa estão abertas para o senhor, mas à igreja eu não vou mesmo!" Alguns dias depois minha mulher voltou a marcar um culto lá em casa. Fazia duas noites que eu estava alucinado, consumindo direto LSD e cocaína. Ao chegar e ver o carro do pastor, pensei: "Não tenho condição de encarar esse pastor desse jeito!" Então saí e fui para a rua. Quando cheguei alucinado, com o revólver na mão, vendo bichos em todos os lugares, totalmente drogado, colocando os cachorros para dentro de casa, escorando as portas, numa condição deplorável, minha mulher teve uma crise de nervos, começou a me esmurrar, e disse: "Olha, Alfredo, eu não quero ver o seu fim! Não quero ver você morrer nesta situação! Eu vou embora, e já!" Pegou algumas coisas e foi para a casa da mãe. No dia seguinte voltou e disse: "Vim buscar os meus pertences". Aí respondei: "Não, você não vai sair daqui. Eu é que vou para uma casa de recuperação, uma clínica evangélica; vou me tratar, me curar deste vício terrível, porque não aquento mais!"
Efoi isso que fiz, naquele mesmo dia. Numa clínica séria, evangélica, fui tratado; ali conheci a verdade. A música que ouvia lá me quebrantou o coração, a ponto de chorar muito, o tempo todo. Comecei até a ler a Bíblia...Sete dias depois sai dali como uma nova criatura, decidido a me tornar cristão. Não fui para lá com o plano de virar cristão, e sim de me libertar da maldição das drogas, às quais estava miseravelmente preso. No entanto, o que aconteceu foi maravilhoso! Veja bem: fiquei ali somente uma semana! Permanecera numa clínica por cinco meses e meio, e de nada me valera. No entanto, com apenas sete dias Jesus me libertou! Saí dali completamente curado, pelo poder sobrenatural do Espírito Santo!
NO dia seguinte minha mulher me disse que haveria um culto matutino, às 6 horas, e nele Deus costumava se manifestar poderosamente. "Você quer ir comigo?" - perguntou. "Sim, quero. Quero ver como é esse negócio..." Quando chegamos lá, ela me disse: "Esse irmão que acabou de chegar profetiza e fala mistérios com Deus". Perguntei: "Onde ele aprendeu isso?" - Ele não aprendeu, Ele simplesmente é tomado pelo Espírito, e Deus fala por meio dele!" - respondeu - Então eu disse: "Ta bom, me engana que eu gosto". Dobramos os joelhos e começamos a orar. De repente aquele começou a profetizar, e fiquei atemorizado; só presenciara manifestações sobrenaturais quando participava da macumba, fazendo trabalhos. Então, no meu pensamento disse a Deus: "Se isso aqui vem de ti, dá-me uma prova, porque se não vem, não vou ficar neste lugar!" Disse isso crendo que Deus iria falar comigo de alguma forma. Só não sabia como, nem quando. Não podia imaginar que seria algo tão instantâneo, tão imediato. Antes de terminar meu pensamento, me vi envolvido por uma claridade enorme e quente. Então uma luz começou a brilhar sobre a minha cabeça, como se fossem mil faróis de milhas ligados ao mesmo tempo! Não sabia se ria ou se chorava. Foi uma sensação tão tremenda e prazerosa, que posso afirmar que nenhuma viagem de LSD, cocaína ou heroína jamais me levara a sentir tamanho êxtase! Quando abri a boca para glorificar a Deus, comecei a falar em outras línguas! Saí dali flutuando, maravilhado!
PASSEIa buscar mais de Deus, e a me interessar por sua Palavra. De repente me vi sendo abençoado. Comecei a pregar o Evangelho, e pessoas foram se convertendo por meu testemunho. O velho Alfredo indesejado e humilhado voltou a ser desejado e querido. Minha família tornou aos bons tempos. Os negócios voltaram a prosperar. A única coisa que me restara da herança era uma rocinha de café, que já não produzia nada há mais de quatro anos.
DEPOIS que me converti, são precisamente quatro safras consecutivas - quatro anos de conversão; e o meu gadinho, o que restou, começou a multiplicar! Deus me abençoou muito! Em 1993 houve uma seca muito grande na Bahia. Todos os fazendeiros perderam gado, mortos pela fome; eu não perdi nenhuma cabeça! Pouca gente conseguiu colher café, inclusive um vizinho meu, que não apanhou nenhum grão; mas a minha roça floresceu e produziu! A minha memória, destruída pelas drogas, foi completamente recuperada! Meu corpo físico foi inteiramente restaurado! Hoje estudo a Palavra num seminário e dirijo uma missão que leva o Evangelho às escolas e ajuda a prevenir os jovens contra as drogas e a prostituição!
Alfredo Gusmão Maia
 Transcrito da Revista A Voz - ADHONEP
 
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